quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Morte de mulher em cirurgia plástica na Bahia expõe histórico de denúncias contra médico

Adriele da Silva Pinto, de 31 anos, morreu na noite de 25 de agosto durante uma cirurgia plástica no Hospital Vida, em Ilhéus, no sul da Bahia, onde havia entrado pela manhã para realizar quatro procedimentos estéticos.

A morte, investigada pela Polícia Civil e acompanhada pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), trouxe à tona novamente o histórico de denúncias contra o cirurgião plástico Rossini Tebaldi Ruback, que atualmente responde a 29 ações por danos morais e estéticos na Justiça baiana, de acordo com a Folha de São Paulo.

Adriele, que morava nos Estados Unidos e estava passando uma temporada com a família em Ituberá, pagaria cerca de R$ 50 mil pelos procedimentos. Segundo o advogado da família, Néry Santana, ela chegou ao hospital às 7h, foi internada às 10h e apresentava exames pré-operatórios normais.

A família afirma que não recebeu informações sobre o que ocorria durante o dia. Por volta da meia-noite, um funcionário comunicou a morte à tia que acompanhava Adriele.
Quatro procedimentos

Adriele seria submetida a uma mastopexia, com levantamento das mamas e colocação de prótese de silicone, lipoescultura, remodelamento costal, com retirada de costelas, e jato de plasma para estimular a produção de colágeno na pele.

De acordo com Santana, quando a família chegou ao hospital, o local estava fechado. O irmão da acompanhante teria quebrado uma porta para entrar. Ainda segundo o advogado, os familiares encontraram o corpo de Adriele dentro de um saco no centro cirúrgico, sem a presença da equipe médica.

A polícia foi acionada e removeu o corpo para necropsia.

A defesa de Ruback atribuiu a ausência do médico e da equipe à invasão do hospital. "Após o grave episódio de violência e depredação ocorrido nas dependências do hospital, o médico e a equipe foram orientados, por questão de segurança, a permanecer em local protegido e aguardar a chegada da autoridade policial", disse o advogado ao jornal.

A defesa também afirma que a anestesiologista que acompanhou a intercorrência assinou o atestado de óbito.

Segundo o escritório de advocacia LARC, que representa o médico, a morte teria sido provocada por hipertermia maligna, uma reação rara e grave a determinados anestésicos. A defesa não informou se havia dantroleno no hospital, medicamento usado para reverter a condição.

A Secretaria de Saúde da Bahia interditou cautelarmente o Hospital Vida. Segundo a pasta, o centro cirúrgico não possuía alvará sanitário.
Outras pacientes

O caso de Adriele chamou atenção para relatos de outras mulheres que passaram por procedimentos com Ruback.

De acordo com o jornal, em 2023, pelo menos 30 mulheres se reuniram para relatar situações que consideravam erro médico, negligência e falta de acompanhamento pós-operatório. Entre os relatos estavam suturas sem anestesia, procedimentos sem estrutura adequada, dores, necrose, abertura de pontos e deformações.

As pacientes afirmavam que, diante das queixas, o médico costumava dizer que os sintomas eram normais do pós-operatório e que estariam relacionados à reação do próprio organismo.

Uma delas é Petrina Fonseca, de 43 anos. Quatro anos atrás, ela saiu de Itabela com destino a Porto Seguro para fazer uma lipoaspiração. Sete dias depois, um ponto da sutura se rompeu.

Segundo Petrina, o cirurgião disse que a situação era normal e orientou que ela continuasse tomando medicamentos. Meses depois, ela apresentava uma abertura entre a barriga e a virilha, preenchida por líquido branco. "Achei que fosse morrer", afirmou.

Petrina diz que demorou a decidir processar o médico. "Foi um pesadelo que eu vivi. Inicialmente não quis processar para não ter que relembrar desse momento."

O advogado Gustavo Azevêdo representa 12 mulheres que afirmam ter sido vítimas do cirurgião. Segundo ele, apenas o processo de Petrina teve, até agora, sentença contrária a Ruback. Um caso teve decisão favorável ao médico, enquanto outros processos ajuizados em 2023 ainda não chegaram à primeira audiência.

Atualmente, há 29 ações contra Ruback por danos morais e estéticos no Tribunal de Justiça da Bahia. Em 2023, eram dez.

Petrina afirma que recebeu uma ligação do advogado antes de decidir levar o caso à Justiça. "Ele disse: ‘Ele fez isso com várias pessoas. Você é só mais uma. Isso vai ficar até quando?’."

Após saber da morte de Adriele em um telejornal local, ela disse ao marido: "Era isso que não podia ter acontecido. Esperar chegar uma morte para ver se eles tomam alguma providência".

Morte de outra paciente

Outro caso envolvendo Ruback ocorreu em 2022 e também terminou em morte.

Identificada na reportagem pelo nome fictício Mirela, a paciente foi internada em dezembro de 2021 em um hospital de pequeno porte de Itabuna para realizar abdominoplastia, lipoaspiração de tronco e lipoenxertia de glúteo.

Ela recebeu alta no dia seguinte e passou a apresentar dor de cabeça e falta de ar, além de dificuldade para se deitar. Segundo a família, Ruback considerou os sintomas normais em uma consulta de retorno, prescreveu medicamentos e liberou a paciente.

Os sintomas continuaram. Vinte e dois dias depois, Mirela desmaiou e morreu durante o deslocamento de ambulância entre Itajú do Colônia e Itabuna.

Na certidão de óbito, a médica socorrista apontou como causas "insuficiência respiratória aguda, embolia pulmonar, trombose venosa profunda e cirurgia plástica".

O Ministério Público da Bahia solicitou, em junho, informações complementares às instituições de saúde e aguarda o retorno para decidir se apresentará denúncia.

O caso está sob segredo de Justiça.
Investigações e defesa

O caso de Adriele é investigado pela Polícia Civil e também acompanhado de forma extrajudicial pelo MP-BA. "O MP acompanha as investigações policiais em curso e está analisando informações sobre o histórico do profissional investigado para tomada de outras providências cabíveis".

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