A chamada de um número desconhecido aparece na tela do celular. Você atende, mas, do outro lado, ninguém fala nada. Poderia ser engano ou mesmo um problema na linha. No entanto, um dos maiores riscos hoje é que essa ligação não seja tão inocente assim. O chamado ‘golpe da ligação’ muda tem provocado o alerta de autoridades e especialistas nos últimos meses.
Por segurança, a empresária Cristina Matos, 58 anos, deixou de atender qualquer ligação, a menos que tenha o contato da pessoa salvo no celular. “Fora isso, só ignoro todas e deixo lá tocando, tanto no fixo quanto no celular. Se a pessoa quiser realmente falar comigo, vai me mandar um Whatsapp. Porque, se for golpe ou algum indício de golpe, eu já bloqueio", conta ela, que passou a tomar a medida depois que teve o número clonado.
Com as ligações mudas, especialistas apontam que há desde riscos de reprodução da voz da vítima para aplicar golpes com Inteligência Artificial (IA) ou mesmo movimentos para conferir se a linha segue ativa, por parte de grupos criminosos. Ainda que seja uma preocupação crescente e, em parte analógica, a ligação muda é considerada um tipo entre as diferentes modalidades de crimes cibernéticos, por envolver
Em todo o Brasil, os crimes de estelionato virtual cresceram 408% entre 2018 e 2024, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Com mais de 2,1 milhões de casos em 2024, o país atingiu a marca de quatro golpes por minuto. A pesquisa Observatório da Febraban, organizada pela federação que apresenta os bancos, indicou que, em 2025, 39% dos brasileiros já foram vítimas de algum tipo de golpe em sua conta bancária. Dentre esses, a modalidade da central falsa, uma das que usa ligações telefônicas, chegou a 31%, tendo crescido cinco pontos percentuais entre março e julho.
Esse tipo de golpe atingiu, principalmente, homens (33%), idosos (35%), pessoas com ensino superior (38%) e renda mais alta (38%). Outros crimes que chegam pelo celular, como o golpe via Whatsapp, também foram citados. Esse, especificamente, atingiu pelo menos 34% das pessoas e chama atenção pela alta quantidade de vítimas jovens (40% tinham entre 18 e 24 anos).
A Polícia Civil da Bahia foi procurada, mas não informou estatísticas de crimes cibernéticos na Bahia e não disponibilizou fonte para entrevista.
Sem falar nada
A ligação telefônica muda começou com as empresas de telemarketing, segundo o advogado Liberato Menezes, especialista em Ciências Criminais e professor de Direito da Afya Salvador. Elas usavam robôs para fazer o maior número de chamadas possível, tanto para vender produtos quanto para cobrança. “Então surgiu a ideia dos criminosos. É uma fraude para enganar o terceiro, de boa fé”, diz.
Segundo ele, esses golpes são considerados estelionato virtual. Eles passaram a ser tipificados dessa forma a partir de 2021, com uma mudança no Código Penal, ainda que não exista um crime específico para essa situação. “Essa é a grande diferença entre o crime de estelionato e o de extorsão. A partir do momento que existe uma violência grave, usando vantagem indevida, é extorsão. Nos dois casos, pode acontecer a ligação muda, mas, no estelionato, a vítima é enganada de forma fraudulenta”.

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